quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Parada de Produção


    Pela primeira vez em centenas e centenas de anos, as renas Rudolph, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner, Blitzen e Bernard não saíram do calor do celeiro na noite do dia vinte e quatro de dezembro. O trenó continuou no mesmo lugar, coberto pela lona escura que o protegia da destruidora umidade da Lapônia. 

    Os duendes também estavam de folga naquela noite, aproveitando o abençoado calor da lareira. No outro lado da propriedade, as luzes do galpão estavam apagadas e não saía fumaça de nenhuma das chaminés. Não havia o ronco dos motores das máquinas, nem o rugir da fornalha que mantinha tudo em funcionamento. Naquele atípico dois mil e vinte, não houve produção na fábrica do Papai Noel.

    O planejamento para mais um Natal foi feito com a mesma precisão de sempre, mas assim que as primeiras cartas das crianças boazinhas começaram a chegar, todos foram arrebatados pela surpresa. Até mesmo Noel, acostumado aos pedidos mais peculiares, ficou sem reação: não havia bonecas, carrinhos ou jogos nos bilhetinhos de escritos com caligrafias redondas e desajeitadas. A maioria das correspondências pedia pelo retorno das brincadeiras ao ar livre, dos passeios nas praças, do pique-pega na hora do recreio, das festas de aniversário cercadas de amigos, dos abraços dos avós e das viagens de férias. Algumas, ainda mais emotivas, imploravam ao bom velhinho pela volta de entes queridos que já não podiam mais ser visitados, comida nas geladeiras repentinamente vazias e a liberdade dos sorrisos, agora escondidos atrás das camadas protetoras das máscaras. Alguns corações, particularmente esperançosos, pediam pela vacina que poderia dar fim ao vírus e a toda tristeza trazida por ele.

    Papai Noel e os duendes bem que tentaram, mas não conseguiram encontrar em seu estoque nada que pudesse servir de matéria-prima para aqueles pedidos. Despacharam as renas e a Mamãe Noel em uma expedição especial de busca, que não teve êxito. Quando finalmente se convenceram de que não havia nada a fazer, trancaram as portas do grande galpão e deram férias coletivas aos incansáveis trabalhadores. Na noite do dia vinte e quatro de dezembro, acalentados pelo fogo e alimentados pela ceia farta, permitiram-se fazer os próprios desejos e mentalizaram, com toda a força de seus corações, para que no próximo ano as cartinhas trouxessem pedidos capazes de fazer a grande fábrica de Natal funcionar outra vez a pleno vapor. 


domingo, 1 de novembro de 2020

Halloween Pandêmico

O Halloween do ano de dois mil e vinte entraria para a história como o mais controverso de todos os tempos. Quando a pandemia começou a se espalhar entre os mortais, pouco depois do solstício de inverno, alguns oráculos previram que a doença representaria um marco na história da humanidade, mas um grupo de céticos imortais espalhou aos quatro ventos que tudo não passava de um exagero: a COVID-19 era uma gripezinha, muito mais leve do que foi a Gripe Espanhola ou a Peste Negra. Morreriam alguns milhares, mas e daí?

Quando o equinócio de Outono passou e as medidas sanitárias forçaram o cancelamento da festa de Mabon*¹, os debates sobre o adiamento do Halloween tiveram início. 

As bruxas foram as primeiras a se manifestarem a favor: a grande maioria tinha centenas de anos e se enquadrava em um dos grupos mais vulneráveis à doença. Não pareciam dispostas a correr o risco de serem dizimadas por um vírus, depois de terem lutado por tantos anos para sobreviver à inquisição e à fogueira.

Os lobisomens deram voz ao coro logo depois que o lockdown foi implementado na maioria das cidades. Apesar das comprovações de que a doença não era transmitida entre espécies, os lupinos ficaram preocupados com o risco de atacarem humanos contaminados e acabarem ficando sem olfato, como muitos casos reportados nos jornais. Além disso, o toque de recolher que proibia as pessoas de circularem depois do anoitecer tornaria a caçada bem pouco proveitosa.

Os fantasmas exigiram o cancelamento quando as fronteiras que separavam os mortos dos vivos foram fechadas. Eles bem que tentaram argumentar que não eram vetores de transmissão, mas as autoridades de saúde foram inflexíveis: para visitar seus entes queridos durante o Sahmain*², era obrigatória a apresentação de um PCR negativo recente. Sem as secreções necessárias para realizar o exame, restou aos espíritos desencarnados adiar os planos de viagem para dois mil e vinte e um.

Os únicos que insistiram em manter o Halloween foram os vampiros. As criaturas sem sangue e sem sombra continuavam espalhando teorias que tentavam minimizar o tamanho da pandemia e atribuíam a  responsabilidade pela propagação do vírus às criaturas sobrenaturais invejosas que não recebiam a atenção desejada durante as celebrações. Eles chegaram a anunciar um elixir contra os efeitos da doença, mas os herboristas vieram à público esclarecer que a combinação de ervas alardeada como uma cura milagrosa funcionava apenas para o tratamento de verrugas.

Bruxas, lobisomens, fantasmas, caveiras e gatos pretos falantes se juntaram em veementes protestos contra os vampiros. Caldeiraços aconteceram durante as diversas reuniões marcadas para decidir o futuro do evento e gritos de “genocida” e “voltem para seus caixões” puderam ser ouvidos em diversas cidades. Estacas de madeira e frascos de água benta foram enviadas às casas dos principais defensores da manutenção das celebrações, com ameaças bastante claras: eles podiam ser imunes à COVID-19, mas não passariam ilesos se a doença se espalhasse entre as entidades sobrenaturais por causa da política de desinformação que vinha sendo implementada.

Quando os debates se tornaram acalourados demais e a média móvel diária de mortos não deu sinais de que diminuiria, chegou-se à inevitável decisão: o Halloween seria adiado até o fim da pandemia. Na noite de 31 de outubro, os fantasmas não caminharam entre os vivos, as lanternas de abóboras foram acessas para iluminar caminhos vazios, as bruxas não saíram para voar em suas vassouras, as caveiras permaneceram em suas tumbas e os gatos pretos dormiram sossegados na frente das lareiras. Houve notícias de grupos de vampiros que ignoraram as medidas de distanciamento social e se aglomeraram em festas particulares, mas foram casos isolados. Em dois mil e vinte, a data mais aterrorizante do ano foi marcada por velas laranjas acessas nas janelas, barmbracks*³ compartilhados entre as sacadas e muito álcool em gel.

Notas de rodapé: 

*¹ Mabon: Equinócio de outono. Na cultura celta, o festival de Mabon celebrava a segunda colheita e representava a preparação para a chegada do inverno. No hemisfério norte, é celebrado em 21 e 22 de setembro.

*² Samhrain:  De acordo com a cultura celta, o Samhain é a noite em que o véu que separa o mundo dos vivos e dos mortos é levantado e permite que os espíritos desencarnados voltem temporariamente a seu lar e entes queridos.

*³ Barmbracks: Pão doce com frutas servido na noite de Halloween. Durante o preparo, o pão é recheado com elementos que prenunciam sorte ou azar para quem receber a fatia “premiada”. Por exemplo: um anel pode significar um casamento breve, uma moeda pode indicar fortuna próxima.

sábado, 30 de maio de 2020

Crônica sobre a Quarentena

Hoje é o meu septuagésimo quarto dia de isolamento social. Parece o início do discurso de um viciado em processo de recuperação, mas é só uma contagem para não perder de vez a noção do tempo. Que ano, senhoras e senhores, que ano!

Vamos nos lembrar de dois mil e vinte como o ano em que o mundo parou. Parou por um motivo triste, que derrubou por terra a convicção de que tínhamos tudo sob controle. A gente não fazia ideia do que estava por vir quando se vestiu de branco para despachar dois mil e dezenove à meia noite de 01.01.2020. Eu ainda me pego tentando lembrar se posso ter me enrolado na contagem das ondas que pulei, se estourei a cidra no momento errado ou se uma escolha infeliz da cor da calcinha pode ter bagunçado o ritual da virada e estragado o ano novo logo na largada. Como a minha memória é um desastre, provavelmente vou carregar essas dúvidas pro resto da vida.

Descobrimos o que nos esperava logo nos primeiros meses e agora estamos (sobre)vivendo dias que serão narrados em livros que nossos bisnetos vão ler. Vocês já pararam pra pensar que esse é um novo marco na história da humanidade? É uma constatação que às vezes me leva a umas reflexões bem profundas, mas na maioria do tempo só me desperta uma mágoa: ninguém que veio antes da gente avisou que viver um momento histórico ia dar tanta dor de cabeça.

Não podemos deixar de reconhecer que a possibilidade de fazer o isolamento social é um privilégio e a gratidão por nos mantermos saudáveis deve ser perene. Mas a insatisfação é inerente da natureza humana e, quase três meses depois do início do confinamento, a paciência com essa rotina cheia de restrições e álcool em gel já começa a chegar no limite. A gente vem tentando improvisar da melhor forma possível, mas em alguns momentos a emenda acaba ficando pior que o soneto.

A começar por esse “novo” meio que as pessoas arranjaram pra se encontrar em tempos de isolamento social. A primeira pergunta é: quem decidiu que a chamada de vídeo em grupo seria uma ideia incrível? Na minha opinião, a experiência de conversar com pessoas que não estão olhando nos meus olhos é bem estressante.

Quando o assunto é trabalho, a gente respira fundo e vai. Todo mundo que participa de reuniões virtuais já aprendeu a abstrair os sons de fundo: a televisão alta, o barulho das panelas na cozinha, a gritaria das crianças ou cachorro latindo na hora errada. As falhas técnicas também já viraram rotina: nenhuma reunião é completa se alguém não perder a conexão no meio do assunto, se nenhum áudio falhar de repente ou se não tiver um rosto congelado no meio da transmissão. Esse é o novo normal.

A coisa muda de figura quando enveredamos para os encontros não profissionais. Eu super respeito quem acha maravilhosa a experiência de passar horas falando com o telefone, mas pra mim não dá. Me atormenta não saber tem alguém olhando mesmo pra mim ou se todo mundo está prestando atenção na sua própria imagem. Atire a primeira pedra quem nunca passou uma chamada de vídeo quase inteira olhando só para o quadradinho no canto da tela.

Vocês já cantaram parabéns em um aniversário virtual? A experiência de bater palma e cantar sozinha pro meu telefone me pareceu tão constrangedora quanto aqueles momentos em que você confunde um estranho com um conhecido ou retribui um aceno que não era pra você. Apesar disso, eu considero o aniversário virtual um evento válido: começar um novo ciclo de vida bem no meio de uma pandemia que parece não ter fim deve ser uma droga. Levanta a mão quem fez aniversário no primeiro semestre, achou que o isolamento já teria acabado até o dia da festa e terminou a noite comendo o bolo sozinho. Nessas horas, o carinho das pessoas queridas ajuda a deixar o momento mais leve. 

Mas tem um tipo de evento virtual que eu espero que seja banido da rotina na vida pós-pandemia: os chopes. A ideia chega a parecer legal quando eu vejo, nas redes sociais, as fotos daquelas várias caixinhas com rostos sorridentes, mas a grande verdade é que o chope virtual demanda uma educação e uma civilidade que não é alcançada por todos os grupos sociais. Eu não me orgulho disso, mas confesso que me falta um pouco dessas duas qualidades. Você já tentou organizar um debate sensato depois de algumas rodadas de álcool? Na mesa de bar a regra é clara: fala mais quem fala mais alto. Os momentos de silêncio prolongados que fazem parte desse tipo de evento virtual também me deixam um pouco impaciente. Eu acabo sempre sendo a primeira a querer desligar depois de quinze minutos de conversa truncada ou quando fico enjoada de olhar minha própria imagem. 

Eu aceito os rótulos de “antipática” e “do contra” que andei recebendo depois de recusar alguns convites para esses empolgantes eventos sociais, mas venho por meio dessa crônica pedir para que vocês não duvidem do meu amor, nem das saudades que ando sentindo de todos. Quando tudo isso acabar, vamos nos abraçar e nos reunir para novas, longas, barulhentas e polêmicas conversas. Enquanto isso, a gente diminui o aperto do coração com ligações e mensagens de texto. Tá tudo bem mandar áudios também, desde que eles não tenham a duração de um podcast.

Fiquem bem, fiquem em casa e tentem não enlouquecer. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Sabotagem do Natal

Havia uma agitação nunca antes vista por aquelas bandas da Lapônia. Todos sabiam que a véspera de Natal era movimentada na fábrica do Papai Noel, mas naquele ano as coisas pareciam particularmente caóticas.

O bom velhinho, já vestido com seus trajes oficiais, assistia angustiado à movimentação nervosa de pessoas sérias e bem vestidas ao seu redor. Algumas falavam ao telefone, outras analisavam com expressões preocupadas as telas de seus smartphones e algumas outras se amontavam ao redor de monitores instalados sobre a grande mesa que no passado havia recebido jantares gostosos e sossegados.

- Noel. - uma voz masculina e eficiente o despertou de seus pensamentos. Uma mão estava estendida em sua direção e segurava um tablet que tinha a tela iluminada por um emaranhado de linhas e pontos coloridos e piscantes. - Esse é seu plano de voo revisado. Atualizamos suas paradas para começar pelos países que estão em horário de verão. Vai ser um trecho de viagem meio corrido e abafado, mas o pessoal da logística garantiu que serão poucas paradas. O time de marketing reduziu bastante sua atuação nessas regiões, já que por lá as pessoas não são super adeptas à tradição de meias penduradas nas lareiras. O gerente achou que isso descaracteriza um pouco sua marca e prejudica a identidade visual do projeto, por isso você vai dar uma passada bem rápida por lá, só pra não perder o market share.

Noel encarou o homem sem saber o que responder, depois lançou um pedido de socorro silencioso à Mamãe Noel. Ela deu de ombros, parecendo igualmente abatida. Sentia-se inútil desde que havia sido afastada de suas funções de preparar a comida para viagem do bom velhinho. Depois de analisar seu cardápio, a nutricionista da equipe de projeto classificou seus quitutes como demasiadamente ricos em carboidratos e açúcares. Ao invés dos biscoitos de gengibre e chocolate quente, Noel levaria em sua bagagem algumas barras proteicas e isotonicos. Sentados lado a lado nas velhas poltronas de descanso, eles observavam desolados o tumulto interminável do go live de Natal e  amarguravam o arrependimento por terem decidido contratar ajuda profissional.

A coisa toda começou uma cartinha fora de época. O remetente era um adulto preocupado com a onda crescente de crianças que deixava de acreditar em Papai Noel cada vez mais cedo. Com palavras motivadoras e boa vontade contagiante, o homem identificou-se como um coach e se ofereceu para uma visita à Lapônia e um bate papo sem compromisso para identificar oportunidades de melhoria. A família Noel ficou encantada com a perspectiva de ajuda. O homem era eloquente, carismático e ajudou Papai Noel a descobrir diversas falhas que certamente vinham contribuindo para sua perda de popularidade, além de convecê-lo a buscar ajuda profissional da melhor qualidade.

Três meses depois, o time do projeto "Noite Feliz" estava montado.

Houve muita discussão quando a equipe de engenharia decidiu rever a cadeia produtiva de brinquedos e sugeriu mudanças polêmicas, que levaram os duendes a cruzar os braços e iniciar uma greve. Felizmente o gerente de integração, juntamente com um Papai Noel bastante aborrecido, interviram a tempo e encontraram um meio termo para implementar as melhorias mais urgentes e atender às reinvindicações dos trabalhadores.

A equipe de marketing também causou um alvoroço quando sugeriu uma mudança na forma como as crianças vinham pedindo seus presentes: as cartinhas eram uma ferramenta de comunicação cara, lenta e sujeita a incontáveis riscos de extravio, por isso seriam substituídas por correspondência digital. Rapidamente formou-se uma força tarefa que seria responsável por ler e classificar toda a correspondência recebida, além de inputar os pedidos no sistema que alimentaria o planejamento de produção. Para garantir que não haveria gargalos, uma equipe de auditoria dedicou-se à tarefa de conferir quais crianças haviam sido realmente boazinhas como afirmavam. Definindo e aplicando métricas simples, foi possível excluir um enorme percentual de crianças mentirosas, pirracentas e preguiçosas, deixando apenas um grupo seleto de estudiosos, educados e obedientes. A equipe de logística complementou o trabalho, organizando trajetos eficientes que garantiriam redução de custos e agilidade nas entregas.

- Destacamos de azul as residências onde você deverá permanecer mais tempo. - uma mulher de gestos ansiosos o colocou pra fora de sua poltrona, conduzindo-o com movimentos enérgicos para o lado de fora da casa. - São casas de crianças influencers, que têm quantidades expressivas de seguidores no Youtube e Instagram. Uma visita caprichada pra essa turma vai colocar seu nome nos trend topics do twitter. É só fazer o de sempre: dá uma olhada na arruamação de Natal, confere pra gente se as lareiras ainda são mesmo relevantes na decoração, esbarra em alguma coisa pra fazer barulho e sai pela janela antes que te vejam. Moleza, né?

Papai Noel abriu a boca para tentar explicar que não era assim que as coisas funcionavam, mas a jovem ergueu um dedo intimidador e recomeçou a falar.

- Ah, pode ficar tranquilo que encontramos um workaround para tratar daquelas cartinhas fora do nosso padrão de qualidade que o senhor fez tanta questão de atender. Enviamos tudo por DHL para um centro de distribuição e, de lá, elas serão entregues por alguns terceiros vestidos exatamente como o senhor. Eles fizeram um treinamento on line e estão super aptos pra fazer suas crianças felizes.

Sorriu um sorriso formal de dentes perfeitos quando terminou de falar, exatamente no momento em que pararam do lado de fora da casa.

- Seu trenó está pronto! - uma terceira pessoa fez um anúncio empolgado, assumindo a conversa. Puxou Papai Noel para os jardins cobertos de neve e apontou na direção de um trenó que parecia ter saído de um filme futurista. - Só precisamos atrelar ele ao trenó secundário que vai levar os presentes. Mas isso não levará mais que meia hora. Não é incrível?

- As renas... - foi tudo o que o bom velhinho conseguiu balbuciar, mas foi novamente interrompido.

- O pessoal de SMS e do markting achou que elas não são boas para sua imagem. Tem um movimento crescente de defesa dos animais e acharam que amarrar uns bichinhos a um trenó poderia sugerir exploração e gerar uma comoção muito negativa. Mas temos certeza de que o senhor nem vai sentir falta delas! Essa belezinha tem um motor super potente, é movido por biocombustível e quase não faz barulho! Usamos o que há de mais moder...

Um barulho de explosão vindo da frente do trenó, seguido por um forte  cheiro de queimado e um princípio de gritaria interromperam o discurso do engenheiro mecânico, que saiu às pressas para ver de perto o que havia acontecido.

Desnorteado com todo aquele caos, Papai Noel fez a única coisa que poderia fazer naquele momento: gritou pela Mamãe Noel, afastou-se com passos trôpegos até os estábulos e pôs-se a chamar cada uma de suas renas pelo nome. Elas pareciam esperar por aquele chamado, pois rapidamente se organizaram na já conhecida formação e esperaram enquanto Papai Noel organizava seu trenó. Os duendes o haviam preparado, como faziam todos os anos, e rapidamente um grupo deles surgiu para ajudar a atrelar o carro com os presentes ao trenó principal. Mamãe Noel apareceu pouco depois, trazendo as cenouras que alimentariam as renas, os biscoitos que havia assado às escondidas na noite anterior e uma garrafa de chocolate quente recém saído do fogo. Beijou as bochechas rosadas do marido, ajeitou o capuz sobre seus cabelos brancos e desejou boa viagem.

Enquanto a equipe de manutenção tentava reparar a pane elétrica que havia causado a explosão e o gerente de logística discutia ferozmente com o de manutenção, Papai Noel instigou suas renas e seu antigo trenó deu partida, escorregando suavemente pela neve fresca até ganhar velocidade e decolar. De dentro de um dos bolsos do pesado casaco vermelho, o bom velhinho puxou a lista de presentes que havia conseguido com um dos analistas de sistemas de plantão e apressou-se em jogar lá de cima o tablet que, supostamente, lhe diria para onde ir. Sorriu satisfeito com o vento gelado batendo em seu rosto e deixou escapar sua característica risada natalina.

Muitos metros abaixo, a equipe que observava o antigo trenó desaparecer pelo céu pintalgado de flocos de neve concluiu rapidamente que o Projeto "Noite Feliz" daria no go. Papai Noel havia retomado o controle do Natal.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Sexto Sentido

Ela aprendeu a entender aqueles sinais mesmo antes de saber seu nome. A sensação de nó na gargante, frio na barriga e pensamentos fora de controle tomavam seu corpo de assalto desde suas mais tenras lembranças.

Ela soube de antemão quando seu cachorro de estimação morreria. Plantou-se junto ao animal doente durante todo o dia, até que a respiração dele se tornou um sopro e cessou por definitivo. Mais tarde, soube antes de todos que havia alguma coisa errada com a saúde de sua avó. Sua inquietação incontrolável e o comportamento fora dos padrões antecederam a fatídica internação e a terrível notícia. Sabia quando uma amiga não estava bem, mesmo olhando através de um sorriso tranquilizador. Conhecia os tons de voz dos seus próximos e identificava, sem grandes dificuldades, quando algo não estava certo. Soube que tomou uma decisão errada no trabalho antes que qualquer um lhe desse o veredito: aquele frio na barriga se instaurou no momento em que dera a resposta impulsiva e não a abandonou até que a proposta se provasse uma furada.

Tinha um imenso orgulho da intuição que sempre fazia soar os alarmes mais altos de sua consciência: enquanto as pessoas patinavam em problemas perfeitamente previsíveis, ela caminhava ao largo deles ilesa, impelida por uma força poderosa e desconhecida. Considerava-se privilegiada, imbatível e inalcançável, até o dia em que aqueles olhos escuros cruzaram seu caminho a ela ignorou a voz na sua cabeça que tentava lhe dizer que aquele amor a levaria à ruína.

domingo, 25 de novembro de 2018

Isso também passa

A frase amanheceu pintada à mão, com tinta preta, no imenso outdoor que ladeava a principal via expressa da cidade. O vento da última tempestade de verão tinha entortado o enorme painel de madeira e desbotado suas cores, mas agora ele exibia, orgulhoso, aquelas três palavras: Isso também passa.

Pedro distraiu-se momentaneamente do trânsito e seus olhos cansados encontraram a frase. Foi impossível não pensar que aquilo havia sido escrito para ele: sentia-se particularmente exausto naquela manhã, depois da devastadora experiência de enterrar o próprio pai. Ele sabia que aquela hora chegaria mais cedo ou mais tarde, mas nunca esteve preparado para isso. Achou que aquele nó na garganta e o aperto no peito que se formaram desde que recebera a notícia duraria para sempre, mas aquela frase no outdoor lhe dizia que não.
Alguns carros atrás, a atenção de Ana se desviou dos garranchos escritos na receita médica para aquelas três palavras do painel. Sempre fora uma pessoa muito sensitiva e teve certeza de que aquela era uma mensagem de incentivo para que ela não desistisse da luta contra o tumor que havia virado sua vida do avesso nas últimas semanas. Apesar do medo, das dores, do mal estar e do cansaço que haviam se instaurado em seu corpo desde o início do tratamento, ela sentiu-se momentaneamente mais forte e fez uma prece silenciosa para agradecer por aquele sinal de que tudo ficaria bem.

João conferiu novamente a hora , suspirou exasperado e lançou um olhar pela janela do ônibus. Encontrou a frase pintada no outdoor, refletiu brevemente sobre seu significado e, quase sem perceber, sentiu-se um pouco mais otimista. É claro que aquela era apenas uma fase ruim. A crise financeira causada pela demissão inesperada, as dívidas acumuladas e o desapontamento pelas repetidas oportunidades perdidas passariam. Tentou acreditar que aquela frase era algum tipo de bom presságio e sentiu o nervosismo se abrandar. Estava indo para a última entrevista de um longo processo seletivo. Por que não acreditar que tinha todas as chances de conseguir o emprego?

Beatriz se desligou das intermináveis instruções da advogada e lançou um olhar cansado pela janela fechada do Uber. Ignorou o próprio reflexo abatido e foi pousar os olhos sobre o outdoor capenga e a frase pintada nele. Aquelas palavras tiveram o efeito de um abraço amigo em meio à montanha russa de emoções que sua vida havia se tornado desde a separação. Ela sabia que aquela era a melhor decisão depois de tantos meses de discussões ácidas, tentativas frustradas de reconciliação e do esforço imenso de acreditar que tudo era apenas uma crise passageira. Quando o amor se transformou em rancor e ele se mudou para a casa do irmão, ela viu sua vida ser consumida pela solidão e pela rotina exaustiva de discussões por causa de móveis, rateios de contas e fins de semana com o filho. Naquela manhã, enquanto se maquiava para tentar esconder as marcas de noites mal dormidas, ela achou que nunca mais seria capaz de amar e sentir-se amada, mas aquelas três palavras encheram seu coração magoado com a esperança de que ainda haveria felicidade reservada para ela.

Quando a Pedro, Ana, João e Beatriz passaram novamente pela via expressa, não encontraram mais as três palavras pintadas no outdoor. A estrutura de madeira havia sido reparada e coberta com a propaganda de um supermercado. Para eles, porém, a mensagem exibida por aquele outdoor seria sempre a mesma: Isso também passa.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ataque Suicida

O tempo pareceu parar por alguns segundos enquanto ela observava aquele botão vermelho e decidia se estava mesmo disposta a levar o gesto adiante. E se estivesse cometendo um erro? E se aquilo fosse radical demais? Relutou brevemente e cogitou deixar a ideia de lado. Talvez pudesse fazer as coisas serem diferentes daquela vez. Podia fazer uma nova tentativa de diálogo, quem sabe?

Recordou-se, então, de como todas as tentativas anteriores já tinham fracassado e de todas as batalhas exaustivas travadas até ali. Sabia que haveria arrependimento, provavelmente haveria lágrimas, mas precisava tomar aquela decisão se realmente quisesse restabelecer a paz. Respirou fundo, redobrou a coragem e leu mais uma vez a mensagem exibida no visor do telefone: "O contato será bloqueado e excluído. Deseja continuar?"

Ela continuou. Apertou o botão vermelho identificado como "sim" e deixou escapar o ar que ficou preso nos seus pulmões. Talvez ainda não fosse o fim da guerra, mas aquela era uma trégua necessária para bater em retirada, estimar as baixas e cogitar a possibilidade de uma rendição.